Caixinha chinesa

Estava fazendo uma caixa, na verdade ela já estava pronta, e resolvi fazer uns pés em estilo chinês para a caixinha, mais como uma forma de desafio. Sempre gostei de pés curvos, mas em estilo chinês nunca havia feito.

Caixa em cedro rosa (madeira clara) e canjerana (madeira mais escura da tampa). As laterais são unidas através de encaixes em rabo-de-andorinha feitos com ferramentas manuais.

Há algum tempo minha prima me mandou várias fotos de móveis chineses. Estava olhando as fotos e, observando os pés dos móveis, percebi que eles possuem várias características que os definem, que fazem com que tenham a cara de chinês. Uma das fotos que mais me chamou atenção foi essa abaixo.

Detalhe dos pés de um móvel chinês.

Estas características abaixo são encontradas em vários móveis chineses, seja uma característica ou várias juntas.
  • A união das travessas com os pés é um encaixe de meia-esquadria tripla.
  • Os pés são curvos para dentro, além disso, as travessas que unem os pés acompanham o desenho deles.
  •  Há um friso na parte interna dos pés e na parte de baixo das travessas travessas.
  • Um rebaixo, uma moldura, algo que defina uma separação nítida entre o móvel e os pés. 

Inspirado nessa foto, fiz os pés em madeira canjerana, a mesma madeira vermelha usada na tampa.





Espigas e seu uso (2/2)

Agora vamos ver os tipos de espigas mais usados em marcenaria.

Espiga e fura cega (Blind mortise and tenon)

Blind mortise and tenon
Figura 10: Espiga e fura cega.

É a mais comum das espigas, onde a fura não atravessa para o outro lado, por isso chamada de espiga cega. Também é chamada simplesmente de espiga.


Espiga haunched (Haunched mortise and tenon)

Esse é um tipo de espiga usado sempre na borda das peças. Se fôssemos fazer uma espiga normal no canto da peça, ficaria uma quantidade pequena de madeira no topo da peça da fura. Com pouca madeira no topo (Fig. 11) , qualquer esforço faria rachar o topo da peça da fura.

Figura 11: Encaixe fraco: a fura está muito perto do topo da peça.

Uma alternativa é recuar a espiga, deixando um pouco mais de madeira no topo da peça da fura (Fig. 12). Porém, abaixando a espiga diminuímos sua altura e diminuímos junto a resistência contra torção.

Figura 12: Espiga recuada: dessa forma a fura não fica perto demais da borda.



Espigas e seu uso (1/2)

Esse artigo vai para aqueles que gostam de marcenaria. É um pequeno artigo cujo conteúdo é muito comum de ser encontrado em livros e revistas em inglês. Mas, como toda informação sobre marcenaria, é algo raramente encontrado em português.

A espiga e fura é um dos métodos mais usados para unir peças de madeira, é também um dos mais antigos, sendo encontrado em sarcófagos do Egito. Primeiro vamos ver a nomenclatura das partes do encaixe. Como não tenho nenhuma literatura em português, traduzi livremente os termos usados em inglês.

desenho de uma espiga
Figura 1: As partes de uma espiga.
A regra básica para as medidas de uma espiga é de que a espessura dela deve ter em torno de um terço da espessura da peça da fura. Se a espiga for mais fina, ficará fraca; enquanto que se a espiga for mais grossa, as paredes laterais da fura ficarão fracas. Na prática é uma questão de escolher a ferramenta que mais se aproxime dessa medida de um terço: caso a fura seja feita a mão, o formão com largura mais próxima; caso seja feita a máquina, a fresa ou broca mais próxima.

O comprimento da espiga tem uma regra básica de ser pelo menos cinco vezes a espessura da espiga. Na prática, quanto mais comprida a espiga mais resistência dará. Então, caso a espiga não seja vazada, o ideal é fazer a fura o mais profunda possível, deixando ainda uma sobra razoável de madeira do lado oposto a fura, para que não fique muito fraca e quebre facilmente.

espigas
Figura 2: Espiga dupla à esquerda e espiga central com haunchs  à direita.
Já a altura da espiga é um pouco mais complicado. Geralmente ela não deve ser muito maior do que o comprimento, pois caso fosse iria dar pouca resistência contra flexão. Uma alternativa caso a espiga seja muito alta, é dividi-la em duas ou mais. Ou fazer uma espiga haunched, com a espiga central comprida, e os haunchs em cima e em baixo, que darão uma maior resistência contra torção, conforme a figura 2.

Lembrando que essas regras são um ponto de partida, não uma verdade absoluta. Cabe ao marceneiro decidir as medidas finais. Alguns projetos sofrem mais forças em um sentido do que em outro, assim o marceneiro pode e deve estudar seu projeto, decidindo as medidas ideais da espiga para dar mais resistência nesse ou naquele sentido.


Caixinha e Luminária

Uma amiga iria fazer aniversário e resolvi fazer algo para presenteá-la. Inicialmente fiz uma caixinha.

caixinha pronta
A madeira mais clara dos pés é louro-freijó, enquanto a madeira alaranjada é peroba-rosa de demolição.

vista explodida
Um desenho da caixinha mostrando todos encaixes.

Resolvi fazer uma luminária no mesmo estilo para fazer conjunto com a caixinha.  Algumas fotos do processo:

aplainando madeira
Aplainando uma velha tábua de peroba-rosa que já foi parte de uma casa, depois foi andaime, e agora virou caixinha e luminária. Uma madeira que parece velha, sem vida, mostra sua cara após umas passadas de plaina. Essa plaina é uma garlopa, plaina grande com cerca de 50 cm de comprimento usada para deixar a madeira perfeitamente plana.